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No ritmo do algoritmo

Redação Recifes
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No ritmo do algoritmo
Foto: Google DeepMind / Pexels

Aos 82 anos, Mick Jagger e Keith Richards acabaram de gravar “Foreign Tongues”. Há mais história dentro daquele álbum do que em muitas universidades famosas. Ainda assim, o novo dos Rolling Stones não soa como uma visita ao museu. Quem ouve consegue distinguir rouquidão, notas sujas e um certo deboche como marca registrada da maior banda em atividade do nosso tempo. Uma banda formada por senhores.

O disco foi gravado em quatro semanas. Em uma das faixas, uma versão de “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry, o produtor convenceu a banda a tocar ao vivo e registrar tudo em fita analógica. A ideia era fazer uma pequena jam, juntar os músicos e gravar como se fosse num palco de uma casa de show. Jagger não embarcou no entusiasmo. “Se alguém ouvir no celular, não saberá que foi gravado em fita. Era assim que fazíamos antigamente. Hoje, não faz diferença.”

A observação é um sinal dos tempos tecnológicos. Jagger não parece interessado em viver de nostalgia. Para ele, fita, celular e estúdio são apenas caminhos até o ouvido. Ele já viveu todas as transformações. Passou dos shows para o vinil, para os K7s, chegou aos CDs e, agora, está na época dos streamings. O que importa para os Stones é fazer a música chegar viva.

Nesse último álbum, a tecnologia trabalha intensamente para apagar as próprias pegadas. Microfones, softwares, correções e camadas de produção ajudam a construir a sensação de que estamos espremidos num canto do estúdio enquanto a banda toca. Quanto mais sofisticado o processo, mais humano parece o resultado. No fim, descobrimos que muita traquitana atrapalha. Deixem os vovôs fazerem o que eles sabem fazer de melhor.

A distorção em nome da criação

No novo álbum dos Strokes, a tecnologia não é feita pra sumir. Ela sobe ao palco para elevar o artista. O novo “Reality Awaits” chegou causando polêmica entre os fãs. Desta vez, quase toda a discussão se concentrou na voz de Julian Casablancas. Em várias faixas, ela aparece metálica, aguda e deformada pelo excesso de Auto-Tune. O software é usado para corrigir a afinação da voz. Mas, quando usado de forma intensa, deixa de esconder as imperfeições e produz um som eletrônico facilmente reconhecível. É feio demais.

Quando o primeiro single foi liberado em abril deste ano, boa parte do público (eu estava entre eles) reagiu como se os vocais de Julian tivessem sido corrompidos pela tecnologia. Era como se ele tivesse desistido e colocado um robô para cantar em seu lugar. A voz dele sempre tinha sido uma das características mais marcantes da banda, justamente por ser imperfeita. Nós, os fãs, queríamos de volta a sonoridade cheia de arrogância, as palavras cantadas de uma forma cansada, distante e entediada. Assim eram os Strokes.

Com o exagero da tecnologia, ele parece cantar de frente para um ventilador ligado no máximo. Você já brincou disso quando era criança? A voz distorce a ponto de parecer uma máquina cantando.

Mês passado, o disco completo foi lançado. Ao ouvir o restante das faixas, foi possível constatar que nem todas tinham Auto-Tune. Um alívio! Julian se justificou dizendo que sabia que o recurso digital ia ser controverso. Mesmo assim, decidiu ir em frente para atingir notas que não conseguiria mais cantar de forma analógica.

Confesso que nem sempre funciona. Em alguns momentos, o recurso tira brilho ao invés de acrescentar. Dá vontade de desligar tudo e pedir que Julian simplesmente fume um cigarro, tome uma cerveja e cante como antigamente.

Transformar a voz pode ser uma escolha artística. Isso não torna toda escolha automaticamente boa. Mesmo assim, cada vez que escuto, o disco se torna um dos meus preferidos na discografia da banda. No fim, foram eles que mudaram ou fui eu?

A máquina canta e a gente aplaude

Joy Rhodes apareceu nas plataformas digitais no final de 2025, cantando um soul tranquilo, suave e reconfortante. Tipo Sade. Suas músicas falam de confiança e amor-próprio. São canções que parecem ter saído daquele fim de semana perfeito passado na praia. Funcionam em playlists, vídeos fofos de Tik Tok e manhãs nas quais precisamos que alguém nos garanta que tudo ficará bem.

Em poucos meses, ela lançou oito singles e se aproximou de um milhão de ouvintes mensais. O problema é que Joy provavelmente não existe.

Não há shows, entrevistas, bastidores ou uma biografia verificável. Os créditos conduzem à própria personagem. Ninguém revela quem criou as músicas, de onde veio a voz ou quais pessoas participaram do processo. O perfil no Spotify oferece uma definição que beira a cara de pau: “Joy Rhodes é menos uma artista e mais uma frequência”.

Talvez seja mesmo. Uma frequência sem infância, cicatrizes, amores perdidos, noites ruins ou histórias para contar. Uma voz fabricada para oferecer conforto, perfeitamente adaptada ao gosto das plataformas e aos segundos de atenção que ainda conseguimos conceder a uma canção.

Os Stones usam a tecnologia para nos lembrar que continuam vivos. Julian a utiliza para deformar a própria presença. Joy Rhodes aponta para um cenário em que presença nem parece necessária. E a gente aplaude e pede bis!

Como nasceu essa coluna

Dividi minha decepção sobre o novo álbum dos Strokes com um amigo. Reclamei que o uso de ferramentas digitais tinha matado a criatividade da banda. “Para de ser mimizento!”, ele disse. “Nós nunca exigimos pureza de uma guitarra elétrica. Aceitamos pedais, distorções e amplificadores capazes de fazer seis cordas soarem como voz humana. Mas basta alguém alterar a voz para dizer que o cara não canta nada”.

Acho que pensamos assim com a certeza de que a voz ainda é o instrumento que confundimos com a própria pessoa. Com o que nos resta de humano. No dia 5 de dezembro, estarei na primeira fila do Festival Primavera Sound, em São Paulo, para ouvir os Strokes ao vivo!

O post No ritmo do algoritmo apareceu primeiro em MIT Technology Review - Brasil.

Artigo originalmente publicado em mittechreview.com.br
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